Passagens Revoltas 1970-2012 - 40 anos de intervenção por ditos e escritos

Capa do Livro

 

 Por assumir muitas e diferentes formas, a educação de adultos é uma “criatura muito variada”.

Assim abre Alberto Melo o seu livro “Adult Education in Portugal”, publicado em 1983, em Praga, pelo European Centre for Leisure and Education, um trabalho pouco conhecido entre nós e cuja leitura, ainda hoje, se revela muito proveitosa. A obra foi-me oferecida pelo seu autor, que devo ter conhecido pessoalmente naquele ano, ou o mais tardar no ano seguinte, depois de uma visita sua a Braga, à Unidade de Educação de Adultos da Universidade do Minho, a cuja fundação esteve ligado como elemento da Comissão Luso-Sueca. De regresso ao Instituto Politécnico de Faro, onde na altura se encontrava, remeteu-me a referida obra com um cartão datado de 11 de julho de 1984, que se conserva no interior das suas páginas e onde se lê: “Com um abraço amigo e uma bela recordação da última passagem por Braga, Alberto Melo”.

Era então difícil imaginar, especialmente para mim, que viríamos não apenas a cimentar uma relação de amizade, mas também de cooperação, através de tantos encontros e trabalhos conjuntos, ao longo de quase trinta anos, até hoje.

Alberto Melo era já, no início da década de 1980, uma referência incontornável da educação de adultos em Portugal e, também, o mais conhecido e reputado especialista português na Europa, e não só. Tinha por ele, como outros da minha geração, uma enorme admiração e um certo fascínio pela sua experiência de vida cosmopolita, especialmente passada em França e em Inglaterra, pelo seu saber e pela sua presença programaticamente marcante na DGEP (Direcção-Geral da Educação Permanente), em 1975/1976, documentada em relatório escrito com Ana Benavente e publicado pela Unesco em 1978 (que continua a ser objeto da minha atenção nas aulas do Mestrado em Educação de Adultos). Aquela admiração manteve-se até hoje e aprofundou-se, à medida que nos fomos conhecendo em variadas e, por vezes, exigentes e difíceis situações, sem atitudes reverenciais, a que ambos somos avessos, mas antes com o sentido crítico, a liberdade de pensamento, a amizade e, até, o humor que fomos cultivando entre nós.

Em torno da educação popular, do desenvolvimento local e da investigação participativa fomo-nos encontrando depois, ainda ao longo da década de 1980, a propósito do Projeto Radial (que ele liderava no Algarve) e do Projeto-Viana (onde me engajei durante cinco anos com Thord Erasmie e tantos outros colegas no Alto Minho). Em 1987-1988 trabalhámos durante um ano na proposta de reorganização da educação de adultos em Portugal, a solicitação da então Comissão de Reforma do Sistema Educativo, numa equipa memorável (pelas relações de trabalho e pelo relatório produzido, embora não pela aceitação das nossas propostas pelos governos da época), que incluía também Manuel Lucas Estêvão, Amélia Mendonça, Lisete Matos e Amélia Vitória Sancho. Ao longo da década de 1990 colaborámos por diversas vezes em torno da Revista Forum, trabalhámos juntos na equipa portuguesa do projeto de investigação EuroDelphi, coordenado internacionalmente por Walter Leirman, nos trabalhos preparatórios de criação da ANEFA (designadamente através de um estudo que realizei, a seu pedido, com Almerindo Afonso e Carlos Estêvão) e encontrámo-nos frequentemente em congressos e colóquios, entre Braga e o Algarve, passando pelas Jornadas de Educação de Adultos realizadas periodicamente em Coimbra, sob direção de António Simões. Já neste século, recordarei apenas o livro que publicámos com Mariana Almeida, em 2002, sobre “Novas Políticas de Educação e Formação de Adultos”, a sua participação na obra “Perspectives on Adult Education in Portugal”, que editei com Paula Guimarães, o encontro a propósito dos trinta anos da Unidade de Educação de Adultos da UMinho, onde pudemos rever tantos amigos (de Peter Jarvis ao inesquecível Johan Norbeck) e, mais recentemente, a reunião do Conselho Consultivo do Instituto de Educação da UMinho, de que ambos somos membros, e o II Encontro de Educação e Formação de Adultos que nos juntou na Fundação Calouste Gulbenkian há apenas um mês.

De permeio participámos em muitas reuniões de trabalho, em júris de doutoramento, na emissão de pareceres e, entre 2008 (nº8) e 2010 (nº13), substituí-o temporariamente na direção da “Revista Aprender ao Longo da Vida”, por força da sua adesão generosa e esperançosa a outra dimensão da educação de adultos, de que esta não pode realmente prescindir, mesmo quando a formação profissional revela, por vezes, vocação hegemónica e excessivamente pragmática.

Durante todo esse tempo, aqui apenas pontuado a traços breves e imprecisos, a ação de Alberto Melo no domínio da educação permanente e de adultos revelou-se quase tão polifacetada quanto a conceção que partilhamos de educação de adultos e ao longo da vida. Para além da sua sólida cultura no domínio, designadamente em termos históricos, políticos e pedagógicos, do seu conhecimento da realidade internacional, da sua criatividade intelectual, Alberto Melo associa uma experiência dificilmente passível de ser reunida numa só pessoa, tanto no plano político-administrativo, incluindo funções diversas de conceção e de coordenação de equipas e projetos, quanto no plano da produção intelectual e da publicação de textos académicos incontornáveis, passando pela intervenção socioeducativa e pelo desenvolvimento local, de que é referência maior entre nós. Tudo isto realizado através de um estilo pessoal muito próprio, ele mesmo intrinsecamente pedagógico, não impositivo, mas antes de escuta, de inspiração dialógica, de debate e argumentação, também generoso, paciente e elegante (que convirá não confundir com hesitante), sem nunca deixar de revelar a firmeza dos seus princípios político-educativos, e por isso sem alguma vez suspender as suas convicções por razões de ordem política ou funcional.

Para mim, Alberto Melo continua a ser o clássico da educação de adultos em Portugal e, ao mesmo tempo, uma referência que inspira possibilidades para o futuro, um testemunho que contém as necessárias energias utópicas de que o campo está tão necessitado atualmente, especialmente devido à erosão a que tem sido sujeito nas políticas públicas e nos discursos mediáticos, de resto à escala internacional, que teimam em estreitá-lo e em conferir-lhe uma forma dominante e demasiado singular. Ao invés, a educação de adultos, na sua melhor tradição democrática e educativa, revela-se, concetualmente e empiricamente, esse campo tão variado e multiforme para o qual, de há muito, vem chamando à atenção Alberto Melo; ele próprio, como vimos, como que por aparente efeito isomórfico, também uma “criatura muita variada”, realmente um caso único, entre nós, de quase personificação da condição plurifacetada e da natureza humanista-crítica de um certo ideal de educação de adultos.

O seu último livro - Passagens Revoltas (1970-2012): 40 anos de intervenção por ditos e escritos -, é o testemunho daquela visão cultural muito própria, da variedade de interesses, experiências e intervenções que realizou ao longo dos últimos 40 anos, mais um ato de cidadania ativa, afinal o motor de toda a sua intervenção socioeducativa multifacetada. Trata-se do repositório de apenas alguns dos textos que produziu ao longo das últimas quatro décadas, alguns inéditos, outros de difícil acesso, e outros absolutamente incontornáveis para os estudiosos da educação permanente e de adultos. Até mesmo para quem conhece bem o autor e a sua obra há surpresas a registar. Não me refiro tanto ao seu velho interesse pela Plebs League inglesa (e mais tarde galesa e escocesa) do início do século XX, ou até mesmo aos textos profundos sobre Economia Política, interesse que há muito lhe conhecia. As suas deambulações pelas Universidades de Manchester, Open University, Southampton, Paris IX, a OCDE, desde 1970, permitiram-lhe o contacto com as problemáticas centrais da educação na Europa e sobre temas e problemas como a igualdade de oportunidades, a produção de desigualdades sociais na escola, as culturas juvenis, as críticas à meritocracia, incorporando nas suas análises os mais destacados autores europeus, as suas obras mais recentes e os conceitos de análise sociológica que então emergiam, especialmente em Inglaterra e em França. Os conflitos políticos e laborais, a democracia e a participação cidadã, mais tarde o desenvolvimentos local e a animação territorial, ganharam protagonismo, através de textos de síntese, artigos de opinião, por vezes uma espécie de cartas de um correspondente estrangeiro, até textos que são autênticos ensaios. A revista O Tempo e o Modo, o Comércio do Funchal, o Jornal da Educação, A Rede, O Jornal da Serra, a Forum, a par de vários capítulos em obras editadas no estrangeiro, são alguns dos lugares de publicação privilegiados.

É claro que, para a maioria de nós, os textos sobre educação permanente e de adultos, educação popular, desenvolvimento local e sustentabilidade são, em princípio, aqueles que maior atenção nos desperta. Aqui encontramos referências incontornáveis, até para os nossos estudantes, como o texto sobre conceitos e práticas de educação de adultos, inicialmente incorporado no livro O Sistema de Ensino em Portugal, publicado em 1980 pela Fundação Gulbenkian; o capítulo, de 1979, sobre a formação do cidadão (ensaio de educação política), publicado em livro coordenado por Paul Lengrand: o artigo publicado na revista Intervenção, de boa memória, intitulado “Educação popular não é educar o povo”; o capítulo integrado em obra editada em inglês pela Unidade de Educação de Adultos da Universidade do Minho sobre a Educação de Adultos em Portugal, com a sua contribuição (agora apresentada em português) subordinada ao Tema “A ausência de uma política de educação de adultos como forma de controle social e alguns processos de resistência”, texto onde se refere à “incoesão portuguesa” e ao “obscurantismo programado” durante o Estado Novo; o texto, de 2006, onde apresenta a questão: “Existe um direito ao desenvolvimento?”; os mais recentes “A economia dominante é insustentável”, de 2009 e posteriormente publicado pelas edições Afrontamento, onde conclui que tal economia é antissocial e antidemocrática, e o belo texto sobre “Educação de adultos e ao longo da vida, pela e para a autonomia”, que apresentou num congresso, em 2011, no Instituto de Educação da Universidade do Minho.

Textos elegantemente escritos, claros e afirmativos quanto à carta de valores adotados, críticos e criativos, sempre bem informados, tanto no plano teórico quanto no domínio das realizações em curso no terreno. Textos de elevado potencial pedagógico, até pelo próprio exemplo de vida do seu autor, talvez porque, como ele diz, “Odeio definições. São tentativas de meter em frasquinhos conceptuais a torrente imparável da vida, de paralisar no retrato uma realidade que é História, que é movimento. A definição diz que é, quando tudo o que é histórico […] está sendo ou deixando de ser […]” (p. 139). De inspiração freiriana, esta frase de Alberto Melo transporta-nos para outra, do mesmo Andarilho da Utopia, que nos adverte para o facto de o mundo estar sendo, e de por isso não poder ser observado como um “dado” dado, naturalizado e despolitizado, sobre o qual nada haveria a fazer em termos de educação para a transformação e a humanização. Os textos e a vida do Alberto não têm sido outra coisa que não uma ação inteligente e comprometida no sentido de contribuir para a compreensão crítica e a mudança democrática do mundo. E nós esperamos que ele continue essa ação.

Texto de Licínio Lima - Síntese da apresentação pública do livro de Alberto Melo Passagens Revoltas (1970-2012): 40 anos de intervenção por ditos e escritos. que teve lugar em Braga, a 10 de dezembro de 2012, na sessão comemorativa do Dia do Instituto de Educação da Universidade do Minho.

Autor/a

Alberto Eduardo da Silva e Melo

Editora

Associação in Loco

Ano

2012

Capa

mole

Páginas

528 págs.

ISBN

9789728262075

Preço

20.00€