“Vamos Ler Juntos”

Portugal prepara-se para receber cerca de 4500 refugiados. Para se integrarem na nossa sociedade vão precisar de aprender o português. Os portugueses poderão ajudá-los nessa tarefa e, ao mesmo tempo, aprender mais sobre os países de origem dessas pessoas e sobre a vida nesses países.

Na Finlândia existe, há 11 anos, o projeto “Vamos Ler Juntos” que envolve mais de 1600 mulheres imigrantes que estudam em grupos acompanhadas por mais de 400 voluntárias. Este trabalho de voluntariado não requer formação ou experiência de professor, embora todos acabem por o ser. Mas o que é fundamental é o desejo de ajudar as mulheres imigrantes a integrarem-se.

Todas as semanas, cerca de 80 grupos de mulheres imigrantes e de voluntárias finlandesas encontram-se por toda a Finlândia, com o fim de se conhecerem umas às outras, de aprenderem juntas e tornarem-se amigas. A rede “Vamos Ler Juntos” apoia especialmente a integração de mulheres que ficaram fora da formação. Algumas dessas mulheres são iletradas.

"A primeira preocupação no grupo é dissipar preconceitos. Muitas vezes, eles existem de ambos os lados em relação a um vasto leque de questões. O processo ocorre gradualmente à medida que as pessoas se vão conhecendo. Isso cria um ambiente seguro e positivo que promove a aprendizagem. “Muitas fizeram também boas amigas no grupo”, diz Marja Liisa Toivanen, uma das duas mulheres que são a força motriz por trás do conceito do “Vamos Ler Juntos” e a pessoa de contacto para o grupo Malminkartano em Helsínquia.

Gratuito e as crianças são bem-vindas

As atividades do “Vamos Ler Juntos” são gratuitas e abertas a todos. As crianças podem ser levadas para os encontros de duas horas. Na maior parte dos casos, a existência do grupo espalha-se através do “passa a palavra” entre pessoas que se conhecem.

Cada encontro tem um tema comum, mas as pessoas estudam-no aos pares ou em pequenos grupos e ao seu próprio ritmo mas também podem discutir quase qualquer assunto, às vezes questões muito pessoais e até delicadas. Para funcionar com sucesso, cada grupo precisa de várias voluntárias.

 

Um feliz voltar à "escola"

O grupo Malminkartano está a começar o seu trabalho após as férias de verão. Há oito alunas presentes. A maioria delas já participou anteriormente no grupo, mas há também algumas recém-chegadas.

Além de estudar finlandês, o grupo discute várias situações que um imigrante na Finlândia pode encontrar. Por exemplo, lidar com a administração pública é muitas vezes difícil devido às diferenças culturais. O grupo serve como uma plataforma para expressar sentimentos e para aprender mais sobre os serviços oferecidos pela sociedade e muitas outras questões do dia-a-dia.

Os alunos admiram-se sobre como é difícil, por exemplo, conhecer as pessoas finlandesas num parque infantil, mesmo se já têm conhecimentos linguísticos suficientes para trocar ideias. Muitos pais finlandeses parecem evitar as pessoas que vieram de outros lugares.

Estudante Hawo: Quero-me tornar uma educadora infantil

Hawo veio da Somália para a Finlândia em 2008. Naquela época, ela não sabia ler nem escrever. Agora é o segundo ano que frequenta o grupo “Vamos Ler Juntos”. O mais novo de seus seis filhos ainda está em casa, enquanto os mais velhos estão no jardim infantil, na escola ou a trabalhar. Por agora, Hawo está totalmente ocupada com o cuidar dos seus filhos e da casa. A cozinha finlandesa já se tornou familiar para a família: cozinham muitas vezes alimentos finlandeses, especialmente papas de aveia, e gostam de frutas e pão de centeio. O objetivo da Hawo é trabalhar no futuro como educadora infantil. “Antes disso, eu preciso aprender mais finlandês.”

Estudante Awin: Encontras amigas no grupo

Awin veio sozinha para a Finlândia em 2010. Agora ela tem um marido e três filhos, o mais novo deles ainda em casa. A primeira língua da família é o curdo. No seu país de origem, Awin frequentou a escola durante três anos e sabe ler curdo Sorani e um pouco de árabe. Agora fala finlandês muito bem e quer aprender mais. Os seus planos a curto prazo incluem estudar para se tornar um assistente de dentista. Awin quer acompanhar e apoiar os estudos dos seus filhos na escola, sendo esta uma das razões para estudar finlandês. Awin considera o grupo “Vamos Ler Juntos” um importante apoio tanto para aprender a língua, como para encontrar outras pessoas.

Aprender sobre si mesmo e construir uma Finlândia multicultural

Muitos das professoras voluntárias são mulheres seniores, para quem este trabalho é muito gratificante e abre janelas sobre um mundo verdadeiramente multicultural, sem a necessidade de viajar para qualquer lugar.

“A professora pode realmente sentir que a idade é respeitada nas culturas africanas e asiáticas. Podemos discutir temas sensíveis no papel de uma avó, por assim dizer. Neste trabalho, pode-se ajudar e ensinar, mas também aprender imenso sobre si própria, ao mesmo tempo que se tem de enfrentar os seus próprios preconceitos e reconhecer os aspetos difíceis da sociedade finlandesa”, descreve Marja Liisa Toivanen.

Professor Liisa: O trabalho voluntário é a interação

Liisa Tukkimäki é voluntária como professora pelo terceiro ano.

"A minha formação é em jornalismo e não tenho nenhuma experiência de ensino. Descobri esta oportunidade através de um ex-colega e estou muito satisfeita. Isto é significativo, sentimo-nos úteis e aprendemos muito. Cada mulher imigrante tem necessidades e pontos de partida completamente diferentes. Na minha opinião, o trabalho exige, em primeiro lugar, competências de interação. Atuar como professora voluntária dá-nos uma grande oportunidade de aprender mais sobre culturas e formas de vida de outros países. Muitas vezes, dá para perceber como sabemos tão pouco sobre os países de origem e sobre a vida das pessoas nesses países.”

De acordo com Liisa Tukkimäki, um fator importante é que o trabalho não exige muito. "Quando há muitos voluntárias no grupo, eu posso ausentar-me se, por exemplo, for viajar. É claro que eu venho para o grupo sempre que posso. Pode-se também vir trabalhar durante uma licença no trabalho, por exemplo”.

Algumas professoras tornaram-se amigas das alunas, conhecem as respetivas famílias e visitam as casas umas das outras. No entanto, não é exigido às professoras voluntárias a interação fora do grupo; elas podem decidir por si próprias.

As atividades do “Vamos Ler Juntos” foram lançados em Vantaa, em 2004, tornando-se três anos mais tarde um projeto de âmbito nacional. Atualmente, a Federação Finlandesa de Pós-Graduação Mulheres the Finnish Federation of Graduate Women é responsável pela administração da rede e as atividades são financiadas por a Fundação Cultural finlandês the Finnish Cultural Foundation..

Mais informações sobre as atividades “Let's read together” em inglês podem ser encontradas no site da rede: Let's read together network

Texto e imagem: Eija Laine e Marjo Rautvuori e pode ser lido em inglês aqui: https://ec.europa.eu/epale/en/content/lets-read-together-groups-teach-finnish-and-help-making-friends-0

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