Por uma aprendizagem participada

Centrada no aprendente, a Educação Não Formal pretende promover o envolvimento voluntário e, portanto, participativo das pessoas, convidando-as a tomar parte em processos de aprendizagem, para os quais, idealmente, partem motivadas.

Nesse sentido, dos seus princípios inerentes (participação, centralidade no aprendente, desenvolvimento integrado de competências - saberes, habilidades e atitudes -, aprendizagem mútua/entre pares, aprendizagem experiencial e ambiente de aprendizagem seguro), o que encerra em si mais pendor político é o da participação das pessoas nesses mesmos processos - voluntários, sublinhe-se.

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Torna-se, portanto, relevante avaliar, a cada passo, a bem da garantia da coerência e sustentabilidade das (nossas) práticas, se este princípio é uma realidade, ou se, ao contrário, porque o temos como implícito, é negligenciado e/ou desvirtuado.

Em Educação para a Cidadania utiliza-se o modelo “CLEAR” (Vivien Lowndes, Lawrence Pratchett and Gerry Stoker, 2006) para descrever os critérios a ter em conta para a criação de oportunidades para a participação efectiva das pessoas em processos de tomada de decisão. Este quadro teórico diz-nos que, para participarem, as pessoas têm que ter Capacidade (CAN), Motivação (LIKE), Possibilidade (ENABLED), uma 'Convocatória' (ASKED) e o facto de participarem deve ter Impacto (RESPONDED TO).
A exploração deste modelo funciona como motor para, enquanto promotores de processos participativos verdadeiramente sustentáveis, reflectirmos acerca do que é necessário para que se atinja o objectivo de fazer com que as pessoas possam participar na tomada de decisões acerca de questões que as afectam.

Se adaptarmos esta proposta aos processos de aprendizagem que facilitamos, torna-se possível verificar, proactivamente, se há uma aplicação efectiva do princípio em causa, num exercício de quasi monitorização, que permite, aliás, revelar as condições necessárias para que as pessoas sejam capazes, estejam motivadas, tenham a possibilidade, sejam convocadas e revejam o impacto da sua participação, neste caso, no seu próprio desenvolvimento de competências.
O que este desafio, suscita, na verdade, são novas questões, às quais o educador vai respondendo ao longo do(s) processo(s) em curso, e para o que tem ao seu alcance uma ferramenta, facilitadora de toda a reflexão que se segue, para si e para o aprendente: a competência de Aprender a Aprender.
Sendo considerada uma das 8 “competências chave [recomendadas pela Comissão Europeia] de que os cidadãos necessitam para a sua realização pessoal, inclusão social, cidadania activa e empregabilidade (...)” (COM, 2006), esta permite às pessoas a “produção de conhecimentos e aprendizagens significativas que possibilitem a cada um apropriar-se dos sentidos das experiências, compreendê-las teoricamente e orientá-las em direcção ao futuro com uma perspectiva transformadora” (adaptado Oscar Jara, 2001).
O desenvolvimento desta competência deve ser encarado como uma prioridade, nomeadamente na Educação de Adultos, já que Aprender a Aprender capacita as pessoas, dando-lhes “motivação, autonomia e responsabilidade para controlar as suas vidas para além das circunstâncias sociais em que se encontram” (Hoskins Bryony and Crick Ruth D., 2008).
Quando, enquanto formadores/educadores, assumimos um papel de facilitadores do processo de aprendizagem, no qual, de mão dada com o aprendente, podemos caminhar umas vezes ao seu lado, outras à frente, e outras até atrás dele, garantimos que, nas palavras de Lao Tzu, “vamos de encontro às pessoas, vivemos com elas, aprendemos com elas, partimos do que elas sabem, construímos sobre o que elas têm, mas quando o trabalho está finalizado, a tarefa realizada, as pessoas dizem «fizemo-lo nós mesmos».”

Susana Constante Pereira - Directora Executiva da Rede Inducar - Organização para a Promoção da Educação Não Formal e a Integração Social

Referências para os leitores:
Vivien Lowndes, Lawrence Pratchett and Gerry Stoker, “CLEAR: Understanding Citizen Participation in Local Government – and How to Make it Work Better”, 2006 (http://www.europeanchallenge.eu/media//papers/ws1_Keynote_Lowndes_and_Pratchett_CLEAR.pdf)

“Key Competences for Lifelong Learning – A European Framework”, 2006
 (http://ec.europa.eu/dgs/education_culture/publ/pdf/ll-learning/keycomp_en.pdf)

Hoskins Bryony and Crick Ruth D., “Learning to Learn and Civic Competences: different currencies or two sides of the same coin?”, Report of the CRELL network of the European Commission, 2008 (http://active-citizenship.jrc.it/Documents/learning%20to%20learn/Learning%20to%20Learn%20and%20Civic%20Competences%20FINAL%20final.pdf)

Oscar Jara, “Dilemas y desafios de la sistematizacion de experiencias”, 2001
(http://www.grupochorlavi.org/webchorlavi/sistematizacion/oscarjara.PDF)

 

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