Não se pode esquecer as gerações adultas

Este texto escrito pelo Marco Andrade que vive na Madeira e que está neste momento desempregado, reflete sobre os problema que afetam a educação de adultos. Enviou-nos dois textos. Hoje publicamos o primeiro.

Atualmente, o nosso país atravessa grandes problemas sociais devido à conjuntura económica e financeira que atinge muitas áreas e, por sua vez, muitos cidadãos. Contudo, a Educação é a que mais tem sido afetada, talvez por não produzir efeitos nem retornos imediatos. Se calhar, a tendência é sempre projectar para o futuro ao invés de se tentar resolver o problema no presente, mesmo que seja moroso e de certo modo dispendioso. Será que não valeria a pena tal investimento?

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No que concerne à mesma, há muito para se fazer, sobretudo neste sistema obsoleto que “formata” professores e até alunos, para além de não satisfazer as suas reais necessidades. Privilegia-se certas áreas, em detrimento de outras, tentamos ajustar o nosso sistema a outros, de outras realidades diferentes da nossa, entre outros ajustes que de nada ou pouco contribuem para a qualidade da nossa Educação.

Voltando ao problema financeiro e económico, o que é certo, é que as decisões tomadas, por quem de direito, dificultam o acesso e o processo de ensino e aprendizagem daqueles que estão ou gostariam de estar no sistema educativo. Se isto já prejudica o sistema em geral, passemos à Educação para adultos, que é vista como o “parente pobre” e a qual tem sofrido drasticamente consequências negativas.

 

Tais medidas, afetam tanto os adultos que manifestam graves problemas de analfabetismo e iliteracia, em diversas áreas, como aqueles que desejam progredir académica e profissionalmente, nomeadamente muitos licenciados, ora porque se extinguem formações por falta de verbas, ora pela resistência de muitas instituições de ensino que “impedem” a entrada dessas pessoas em determinadas formações. Por exemplo, no caso de muitos professores desempregados que querem realizar determinadas formações contínuas, para continuarem atualizados ou melhorarem os seus conhecimentos pedagógicos e científicos, é-lhes negada a participação nessas mesmas formações, cujas e únicas justificações são: dar prioridade aos docentes que estão no ativo, limitando, por isso, o número de inscrições, e ainda pelo facto destes não pertencerem ao agrupamento da sua licenciatura (grupos em diversas áreas) ressalvando que são necessários certos requisitos. É certo que há sempre a possibilidade de realizarem outras formações, (pós graduações, Mestrados e Doutoramentos) mas como, se o dinheiro é o principal impedimento? E qual a sua motivação, sobretudo, quando deixam de exercer a sua profissão?

Quanto a outros grupos, não contemplados ao acesso à Educação, (idosos institucionalizados, adultos desempregados, estrangeiros/imigrantes residentes no país de acolhimento, e mais recentemente refugiados, no país) são inúmeras as pessoas que têm dificuldades de se inserirem socialmente, seja no mercado de trabalho, seja a nível pessoal, dificultando a realização das suas tarefas diárias, tornando-as vulneráveis e dependentes de terceiros. Como se poderá exigir delas, o que lhes é negado?

 Isto traz graves consequências a nível social, profissional e pessoal. São medidas que empurram as pessoas, incluindo licenciadas, para a exclusão social e profissional. Há que “travar” estas medidas e apelar para aqueles que as implementam que o investimento financeiro para a Educação que engloba estes grupos são uma mais-valia para uma sociedade instruída, competitiva e coesa, para além de respeitar um dos Direitos Humanos, devolvendo-lhes, assim, a dignidade. Hoje, são muitos os adultos que transmitem ou deveriam transmitir os seus conhecimentos e experiências de vida às gerações mais novas, como é o caso dos avós, pais e encarregados de educação que prestam esse apoio aos seus filhos, mas só uma parte deles (instruídos e financeiramente favorecidos) é que lhes poderão proporcionar esse acompanhamento com alguma qualidade. Não se pode esquecer de outros grupos menos desfavorecidos socialmente, com graves problemas sociais (reclusos, toxicodependentes, alcoólicos, prostitutas e de diferentes etnias) cujo acompanhamento pedagógico, em conjunto com outras áreas, poderia ser um apoio fundamental para a sua reinserção e integração.

Outro “erro” a que se assiste em muitas instituições, principalmente, as de apoio social, é a falta do contributo e intervenção de docentes profissionais (salvo as excepções), sem conhecimentos pedagógicos para trabalhar com as faixas etárias adultas, especialmente no âmbito da alfabetização. Não basta ter conhecimentos científicos, nem experiência profissional. Há que ter em conta a área que se está a ensinar (igual ou diferente da sua), as estratégias e metodologias adequadas ao adulto. Para além disso, outros requisitos necessários que não se aprendem na escola nem na universidade, são as competências sociais e relacionais, essenciais para a relação professor/aluno e aluno/professor.

 

Em determinadas regiões, nomeadamente na Região Autónoma da Madeira, o Ensino Recorrente para o Adulto, no âmbito da alfabetização e outros de Formação de Adultos (EFA) têm sido afectados pelas razões acima mencionadas. Contudo, devido à sua intervenção e organização, davam respostas às necessidades emergentes à (s) comunidade (s) que os frequentavam.

Nos últimos anos, tem havido uma grande falta de apoio para a continuação destes cursos, que dificultam o acesso daqueles que os procuram, como compromete todo o trabalho e investimento realizado até agora. Foram muitas as instituições que fecharam os seus cursos, alguns em regime diurno, junto da área de residência destas comunidades, como o caso das IPSS, Juntas de Freguesia, entre outras. Isto levou ao despedimento de muitos professores que em consequência, reduziu drasticamente o número de alunos, ou seja, ficaram sem professor e sem dar continuidade aos seus estudos. Ainda existe o Ensino Recorrente, mas com um número muito inferior de instituições e de alunos. Estes cursos, durante alguns anos, possibilitaram combater o analfabetismo e iliteracia que se tinha cá na região que, segundo as estatísticas, é a terceira região com maior taxa de analfabetismo, sobretudo, nos adultos.

Como se pode encaminhar os adultos para cursos profissionais, quando lhes faltam as bases essenciais, tais como: escrever, ler, interpretar e contar, fora outras competências sociais? Por falta destas bases, muitos docentes dos cursos profissionais manifestam grandes dificuldades para lecionar a área que estão incumbidos, do mesmo modo que é “difícil” para esses alunos compreenderem e progredirem com sucesso.

Embora ainda existam estes cursos, julga-se que há uma falta de articulação entre o ensino de alfabetização e os cursos profissionais para adultos. Nessas escolas profissionais, não deveriam fazer parte, também, professores do Ensino Básico que pudessem dar o contributo ao nível da alfabetização, sobretudo, para ajudar na aquisição e consolidação dos conhecimentos básicos e, deste modo, dar acompanhamento aos alunos nas áreas curriculares ministradas?

 Concluindo, importa e urge repensar na Educação para o futuro das novas gerações, mas não se pode esquecer das gerações adultas que fazem parte do mundo das primeiras. Os problemas e as dificuldades destas pessoas são reais e presentes. Há que lhes dar esse apoio, com qualidade, para que possam (re)fazer a sua vida. Há falta de alunos? NÃO. Há falta de professores? NÃO. Quanto ao financiamento, invistam menos em projetos que não potenciam o conhecimento, nem a cultura, necessários para um povo participativo, consciente, crítico e ativo.

Marco Castro Andrade

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