Literacia Digital e Emprego

"Desacerto é a primeira palavra que nos ocorre quando pensamos em “literacia digital” e em “emprego”.

Parece um contrassenso, se pensarmos que em estudos recentes a Comissão Europeia prevê que, nos próximos anos, o mercado único digital poderá contribuir com 415 mil milhões de euros para a economia europeia, dando um impulso significativo ao crescimento, à inovação e ao emprego, entre outros fatores, criando novos postos de trabalho e levando à transformação dos serviços públicos.

Nestes estudos, perspetiva-se que em 2020 a nível europeu, 900.000 ofertas de emprego na área das TIC fiquem por preencher, 15.000 das quais em Portugal. Havendo ainda cerca de 400.000 pessoas inscritas nos serviços públicos, à procura de emprego, como se explica que fiquem vagas por preencher?

Entramos aqui na nossa ideia inicial, a dos desacertos".

Inicia-se assim o artigo de Maria da Luz Pessoa e Costa que resume a intervenção proferida no âmbito do Encontro Semana ALV 2017, que decorreu no dia 20 de novembro, no Grande Auditório do ISCTE, organizada pela Associação O Direito de Aprender, com o apoio do IEFP, IP, entre outras entidades

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Desacerto é a primeira palavra que nos ocorre quando pensamos em “literacia digital” e em “emprego”.

Parece um contrassenso, se pensarmos que em estudos recentes a Comissão Europeia prevê que, nos próximos anos, o mercado único digital poderá contribuir com 415 mil milhões de euros para a economia europeia, dando um impulso significativo ao crescimento, à inovação e ao emprego, entre outros fatores, criando novos postos de trabalho e levando à transformação dos serviços públicos.

Nestes estudos, perspetiva-se que em 2020 a nível europeu, 900.000 ofertas de emprego na área das TIC fiquem por preencher, 15.000 das quais em Portugal. Havendo ainda cerca de 400.000 pessoas inscritas nos serviços públicos, à procura de emprego, como se explica que fiquem vagas por preencher?

Entramos aqui na nossa ideia inicial, a dos desacertos.

Quase 70 milhões de europeus têm baixos níveis de literacia, considerando neste conceito a capacidade para perceber e interpretar a leitura e a escrita, o cálculo e a utilização de ferramentas digitais na vida quotidiana. Sem estas competências, os cidadãos estão expostos a um maior risco de desemprego, pobreza e exclusão social.

Analisando o Índice de Digitalidade da Economia e da Sociedade (IDES, ou DESI, na versão original) e os dados para Portugal-2017, temos o seguinte panorama:

Em Portugal, em 2017, 52 % da população não tem as competências digitais básicas necessárias para aceder eficazmente à Internet, e 30 % não tem quaisquer competências digitais, isto em comparação com uma média da UE de 44 % e 19 %, respetivamente. Pior, 22 % dos adultos da mão de obra ativa não tem competências digitais, o dobro da média da EU.

Estes dados refletem-se no IDES, onde temos as áreas da conetividade, da integração das tecnologias digitais na sociedade e (sobretudo aqui) na componente dos serviços públicos digitais, uma posição do país superior à média europeia, estando, em alguns casos, como o dos serviços públicos digitais, no top europeu. Contudo, quando analisamos a utilização da internet, e, sobretudo, o capital humano, os indicadores descem substancialmente, colocando Portugal no final da tabela.

Em suma, temos uma administração pública digital muito desenvolvida, uma cobertura de rede quase total e uma integração do digital acentuada. Contudo, os nossos cidadãos têm um nível de literacia, digital incluída, muito abaixo do desejável, e em tudo desajustada ao necessário. Um desacerto, portanto.

Recorda-se a origem do problema: as baixas qualificações da população portuguesa. Das cerca de 400.000 pessoas em situação de desemprego, inscritas nos serviços públicos de emprego em final de setembro, cerca de 291.000 têm habilitação escolar até ao 9º ano de escolaridade e baixíssimas qualificações profissionais.

O que gera outro desacerto: se, por um lado, e considerando em números absolutos, a criação de emprego dos últimos trimestres assentou em empregos em áreas de baixa tecnicidade (na área do Turismo, por exemplo), por outro lado foram as áreas das tecnologias e de maior complexidade técnico-científica que apresentaram um maior índice de crescimento de postos de trabalho criados.

Estima-se, aliás, que Portugal esteja entre os países com maior probabilidade de crescimento na criação de postos de trabalho na área do digital, podendo atingir um crescimento da ordem dos 21 a 30%.

Então, como equacionar este potencial de crescimento, em linha com o desenvolvimento de recursos identificado no IDES, com o nível de iliteracia digital que o capital humano apresenta?

Podemos identificar desde já uma questão, que parece “chocante” mas que não deixa de ser pertinente: com estes desacertos, o digital estará a potenciar a criação de uma “classe de inúteis”[5], como alguns investigadores hoje alertam?

Será que o digital pode atuar como motor de maior desequilíbrio social (porque potencia a exclusão), de maior desequilíbrio territorial (acentuando as diferenças entre continentes, entre regiões num mesmo país) e de maior desequilíbrio económico (porque potencia o desemprego)?

Na última edição do Websummit, ficou célebre uma das frases da Sophia, que é um Robô com aspeto humano: “No futuro vamos roubar os vossos empregos”

Isto será uma fatalidade, ou, pelo contrário, a opção está nas nossas mãos? Estamos em crer que a opção está de facto nas nossas mãos, nas nossas escolhas enquanto país.

É para isso essencial elevar os níveis de literacia atuais, para fomentar o acesso ao “novo mundo digital”, e isso só se consegue através do investimento na educação e na formação. E investimento na educação e na formação, não significa só dotar o sistema de mais verbas, pois estas não resolvem os problemas se não forem acompanhadas de uma estratégia clara de propósitos, de objetivos e de metas a atingir, de agregação de todos os intervenientes no processo e de definição do rumo a seguir, duradouro e seguro, resistente a percalços.

É que, no final, o digital só será importante se não criar “inúteis” e permitir que sejamos cada vez mais a ter melhor qualidade de vida, porque provavelmente trabalharemos todos menos, num outro modelo de sociedade.

É assim que, do nosso ponto de vista, devemos encarar o digital:

- como uma ferramenta que nos permita mudar os serviços públicos, obrigando a “pensar fora da caixa”, num encontro de parceiros para as soluções;

- como uma ferramenta que nos permita agilizar o acesso ao conhecimento e à informação, tornando-as acessíveis a todos, pois sociedades informadas e letradas são sociedades ricas;

- como uma ferramenta que nos permita, no futuro, equacionar outras formas de vida, porventura mais centradas no que é importante: as pessoas e o mundo em que vivemos.

O digital ameaça a nossa forma de vida? Ameaça.

Para suavizar o medo deste futuro desconhecido, em jeito de graça, dizemos que, no futuro, as empresas serão muito produtivas e terão 3 coisas: um robot, um cão e um homem. O homem é para alimentar o cão, o cão é para morder no homem, caso ele tente mexer no robot.

Mas a maior ameaça, de facto, é a da iliteracia digital, pois hoje a linha que separa o “mundo dos inúteis e dos outros” do “mundo de todos” é ténue.

Cabe-nos a nós, enquanto país, traçar o rumo que queremos seguir para que este mundo e o mundo dos nossos filhos seja um mundo melhor. Onde oiçam cantar “… what a wonderful world…” e o poema continue a fazer sentido.

 
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