Instrução de Adultos

Nunca gostei muito de “Educação de Adultos”, quer dizer, nunca gostei muito do nome que se dá a actividades conducentes a uma melhor integração socio-profissional dos que já não têm idade para estar no ensino de obrigação. Mas educar tem a ver, antes de mais, com a apropriação de valores, o que nos pode conduzir a um sem fim de questões de natureza ideológica.

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Passando pelo revolucionariamente romântico, com a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, até se chegar à direita musculada do Deus, Pátria e Autoridade.
Nos tempos da primeira República recorria-se mais à Instrução, Pública, e havia uma atitude prática (por exemplo: construção de escolas, liceus e institutos). Com a ditadura que se seguiu entrou na moda a Educação, Nacional e tudo, e os resultados foram os que era de esperar: iliteracia generalizada e estagnada. Após o 25 de Abril foi-se mantendo o esplendor da Educação, em versão pós-modernista, de muita parra e pouca uva, ou muito formalismo e pouco conteúdo.
Na situação de crise generalizada em que se vive, qual o papel da instrução para adultos?
Talvez o de fornecer mecanismos de resistência e de sobrevivência na luta por uma vida melhor, não esquecendo que estamos a falar de muitos daqueles meninos que sempre foram menos meninos que os outros. Este discurso parece um tanto neo-realista, mas o facto é que a situação actual vai buscar muito ao neo-realismo: miséria, corporativismo, abuso de poder, corrupção.
Tendo colaborado na preparação do Referencial de Competências que, com base na experiência vivida e na vontade de saber mais, dá equivalência ao 12° ano de escolaridade, não posso deixar de me questionar sobre se não deveríamos ter dado mais atenção, nas áreas ligadas à economia, à miraculosa transmutação de capitais públicos em privados, que ao nível de grandes empresas e bancos se opera, com o recurso a offshores, fuga descarada a impostos, invenção de parcerias públicas e privadas, mega salários a gestores, etc., etc.
Haverá espaço para Novas Oportunidades, ou será que eles comem tudo?...

Jorge Dias de Deus é Professor do Instituto Superior Técnico de Lisboa no Departamento de Física.

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