Inscrevendo novas pedagogias em Educação de Adultos

Dediquei, ao longo da vida, uma parte significativa da minha actividade profissional e de tempos livres à Educação de Adultos. Hoje, afastado, tento estar próximo. Para tal, nunca descuro uma boa leitura sobre a problemática.
Um dia destes tive acesso ao número 70/2009 da Revista Educación de Adultos y Desarrollo. Nela fui encontrar escritos de alguns qualificados autores discorrendo sobre as metodologias da Educação Popular.

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Confrontei-me com modelos e métodos muito interessantes na sua função de dar configuração a projectos de educação não formal e informal. Ao lê-los uma conclusão tirei de imediato: as metodologias em acção, não estimulavam estratégias repetitivas, imponderadas, antes arquitecturas permanentemente inovadoras e meditadas. Enfim, uma quase arte. Estes pressupostos revelaram-se-me convincentes, por exemplo, nos processos de aprendizagem envolvidos no tema transversal Educação para os Direitos Humanos, concebido formativamente em redor de módulos pedagógicos designados por “pedagogia da resistência”, da “cidadania”, da “diversidade”, da “paz” e da “ternura”.
Pasmei, pois nunca tinha ouvido falar na “pedagogia da ternura” em Educação de Adultos! Logo após, e melhor conjecturando, ela tornou-se-me uma evidência com razão de existir nos dias de hoje tão conturbados.
Este enfoque responde à necessidade formativa de trabalhar com seres humanos em situação de extrema prostração e vulnerabilidade, perto da violação sistemática dos seus direitos. Estão nesta condição muitos dos nossos idosos, os meninos de rua, os sem abrigo, os trabalhadores sujeitos a trabalhos cruéis e sem horários, as mulheres violentadas, muitas pessoas com deficiência física, mental e psicológica, emigrantes, drogados e alcoólicos.
 Esta situação de vulnerabilidade obriga, quando postos em situação de aprendizagem, a um tratamento educativo muito especial. A “pedagogia da ternura”, ou melhor dizendo, a arte de educar e ensinar adultos com carinho, dá-nos uma resposta convencedora : - evita ferir, intenta tratar cada um como pessoa que é, respeita o seu valioso património, único, individual, irrepetível. O seu foco de atenção centra-se na construção, ou na reconstrução, da auto-estima de cada um, instrumento insubstituível para enfrentar a vida e “aprender a aprender” todos os dias. A auto-estima é o passo inicial, a tomada de consciência e a acção transformadora.
Por tudo isto requer-se do formador, enternecimento, atitudes de afecto, fé na mudança, dedicação ao outro, compreensão. Nestes contextos formativos a pedagogia e a terapia andam de mãos dadas.
Se tivesse lido o que hoje li, há uns anos atrás, enquanto avaliador externo de projectos educativos não formais para mulheres muito discriminadas, teria aconselhado aos formadores a “pedagogia da ternura”. Quem sabe, porventura se tivessem convencido todas aquelas mulheres a “aprender a aprender” ao longo da vida.

António Inácio Correia Nogueira
 

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