Histórias de Vida nas Bibliotecas Públicas

O Manifesto da UNESCO reconhece a importância central das bibliotecas públicas na criação de condições favoráveis à aprendizagem ao logo da vida, à possibilidade de um desenvolvimento pessoal criativo e ao apoio à tradição oral e inscreve como traço essencial da missão das bibliotecas públicas as suas funções social, cultural e educativa.

Tendo em conta estes princípios as Bibliotecas Municipais de Oeiras desenvolveram o projeto Histórias de Vida: projeto de promoção das literacias para o público adulto, com uma experiência piloto em Algés que pretende experimentar, de forma regular e continuada, um trabalho de recolha e registo de histórias de vida de pessoas nascidas antes de 1955. 

As Bibliotecas Municipais de Oeiras lançaram recentemente um livro que pretende ser uma homenagem aos protagonistas do projeto – os narradores das suas histórias de vida – mas também o reconhecimento da importância da memória de cada um para o enriquecimento da memória coletiva e da história local. Além do livro existe também um website que permitirá ampliar a sua divulgação e enriquecê-lo com recurso à multimédia e às redes sociais.

Divulgamos aqui o site onde poderá ter acesso ao download do livro e transcrevemos alguns dados do projeto.

Descrição do projeto

"Todas as pessoas têm um papel na sua comunidade, ouvir as suas histórias é uma forma de promover a integração pessoal e social, é uma forma de promover a identidade e memória colectiva."

Causa defendida nas Comemorações do Dia Internacional das Histórias de Vida (16 de Maio)

O projeto Histórias de Vida é uma frente de trabalho que se propõe contribuir para reforçar a envolvência da comunidade com a biblioteca pública e dar novos rumos à aposta que as bibliotecas municipais têm realizado na área da tradição oral e da revitalização da memória coletiva, um dos vetores cada vez mais assumido como sendo crucial e determinante para o desenvolvimento das literacias. Por outro lado, trata-se de ir ao encontro de um segmento de público que vem crescendo em número e para o qual urge encontrar formas inovadoras de promover a participação cidadã, a envolvência com a comunidade, as dinâmicas de grupo, o combate à solidão.

O Manifesto da UNESCO reconhece a importância central das bibliotecas públicas na criação de condições favoráveis à aprendizagem ao logo da vida, à possibilidade de um criativo desenvolvimento pessoal e ao apoio à tradição oral e inscreve como traço essencial da missão das bibliotecas públicas as suas funções social, cultural e educativa. Ser a porta local de acesso ao conhecimento, à cultura, à educação é, por isso mesmo, fazer da biblioteca pública um lugar privilegiado de encontro da comunidade, proporcionando programas e atividades que correspondam aos interesses das pessoas e promovam, através da interacção e do diálogo, uma experiência social enriquecedora e positiva.

As histórias de vida são narrativas na primeira pessoa, que traduzem o percurso pessoal, único e irrepetível de cada um. Nelas se expressa o processo vivido por cada ser humano, desde o nascimento até ao momento em que se propõe narrar as várias etapas das suas vivências, reconstruindo, a par disso mesmo, os acontecimentos históricos, sociais, políticos e culturais da época. Desde a Escola dos Annales e do nascimento da Nova História que assistimos à progressiva valorização das fontes orais como importantes recursos de memória social. Hoje em dia, as histórias de vida são um instrumento metodológico relevante nas Ciências Sociais. De facto, as histórias de vida permitem-nos captar "o que escapa às estatísticas, às regularidades objetivas dominantes e aos determinismos macrossociológicos, tornando acessível o particular, o marginal, as ruturas, os interstícios e os equívocos, elementos fundamentais da realidade social, que explicam por que é não existe apenas reprodução, e reconhecendo, ao mesmo tempo, valor sociológico no saber individual." (Brandão, 2007: 10) Para além deste valor sociológico, que reforça o importante papel da biblioteca pública no apoio à história e à cultura locais, as histórias de vida, a sua narração, permitem a reconstituição das vivências de cada um e a reconstrução da vida como texto, como narrativa, implicando o recurso à memória, potenciando a 'leitura' em perspectiva do 'meu' percurso, abrindo portas ao auto-conhecimento, à partilha e à descoberta de emoções, de sentimentos, contribuindo para reforçar positivamente a identidade de cada um.

"(...) Cada um de nós tem uma história de vida, uma narrativa interna cuja continuidade e essência é a nossa vida. Pode-se dizer que cada pessoa constrói e vive uma "narrativa", e que essa narrativa é ela própria, é a sua identidade. (...) Cada pessoa é uma narrativa única que é contínua e inconscientemente construída por cada um de nós através de cada um de nós, das nossas percepções, sensações, pensamentos, acções e também do discurso, da narrativa oral. Biológica e psicologicamente não somos assim tão diferentes uns dos outros, historicamente, como narrativas, cada um de nós é um ser único. (...)" SACKS, Oliver - O homem que confundiu a mulher com um chapéu. Lisboa: Relógio de Água, 1985.

Algumas Diretrizes Europeias, caso da PULMAN (2003), CALIMERA (2005) ou ENTITLE (2010) destacam, entre muitas outras áreas, o papel das bibliotecas no apoio à formação ao longo da vida, à educação formal e informal e ao desenvolvimento social. Nessa medida, pretendemos que o projecto seja complementado com a vertente de Histórias de Vida Digitais = Digital Storytelling. Neste âmbito, a narrativa e o registo das histórias englobam uma variedade de novas práticas inerentes às ferramentas multimédia, com enfoque na primeira pessoa e nos processos e métodos de produção participada, contribuindo para o desenvolvimento de competências pessoais feitas de todas as literacias, sejam as linguísticas, digitais, literacias da informação, visuais ou sociais e humanas. A partir do registo de depoimentos em áudio ou vídeo é possível agregar em ambiente web um infindável número de histórias de vida, o que nos permite, além da publicação em papel e on-line, divulgar documentários vídeo representativos de temas de interesse local e promotores da valorização da história, cultura e património de Oeiras. Neste contexto, as Histórias de Vida vão integrar um dos sectores do sítio «Memórias de Oeiras», repositório cooperativo que permite a integração dinâmica e o acesso contínuo a novas coleções e conteúdos digitais das bibliotecas, arquivos, centros de documentação, galerias, museus e monumentos do concelho de Oeiras, relativos ao património cultural e histórico, tanto material como imaterial. Numa perspetiva evolutiva do projeto, as próximas etapas envolvem a componente de formação tendo em vista a criação de conteúdos e registos de Histórias de Vida Digitais. O enriquecimento do projeto com a modalidade de Digital Storytelling pretende potenciar a criação de laços entre as pessoas do grupo, através da partilha das suas histórias, sempre produzidas por cada um dos protagonistas e narradas pelos próprios numa junção da voz, imagens e música. Sendo um veículo poderoso de literacia digital, esta técnica de comunicação procura igualmente "humanizar" o uso das tecnologias de informação e comunicação, apostando na cooperação e confiança entre as pessoas. Esta etapa compreenderá a realização de um conjunto de oficinas destinadas tanto à equipa como aos participantes no projeto com o objetivo de promover competências digitais básicas para a produção de Histórias Digitais. Atualmente, os projectos de "Digital Storytelling" podem ser facilmente editados e difundidos, em função da agilidade e acessibilidade permitida através das tecnologias, as quais viabilizam igualmente a sua partilha alargada, quer em contextos restritos e localizados, quer através de plataformas globais disponibilizadas na web como o Storycenter (http://www.storycenter.org/ ), Stories for Change (http://storiesforchange.net/) ou no contexto particular das bibliotecas, museus e arquivos, o espaço dedicado ao Digital Storytelling Europeana

http://labs.europeana.eu/apps/digital-storytelling-prototype

Objectivos do projecto

- Conhecer, através da oralidade, as histórias de vida de pessoas comuns;

- Potenciar a auto-estima, o sentimento de pertença a uma comunidade e o exercício da cidadania;

- Preservar e revivificar a memória individual e social e, nessa medida, ampliar a nossa visão do mundo;

- Aliar as tecnologias digitais a projectos de memória e disponibilizar os depoimentos em vários registos: áudio, fotografia e vídeo, conteúdos que irão ficar acessíveis no repositório «Memórias de Oeiras»;

- Publicar o registo escrito impresso e online de cada grupo de trabalho;

- Criar parcerias com projetos com objetivos idênticos, como sejam o projecto MemóriaMedia - e-museu do património cultural imaterial (Portugal), ao Museu da Pessoa (Brasil; Núcleo português do Museu da Pessoa - Universidade do Minho) e a plataforma Digital Storytelling Europeana (Fundação Europeana);

- Promover as literacias de informação e dos media através da inclusão digital;

- Estimular as literacias digitais, através de oficinas de formação que incidam na aprendizagem e desenvolvimento de competências para a criação de histórias de vida digitais;

- Reforçar o papel social das bibliotecas como meio de incentivo à criação de conteúdos que contribuam para a valorização das pessoas em interligação com a história do concelho e a comunidade.

O processo de recolha é feito mediante um guião que estabelece um plano sequencial marcado pelas etapas de vida e pelos momentos relevantes de cada uma dessas etapas: infância, juventude, idade adulta e velhice. A vertente histórias de vida digitais implica os recursos multimédia necessários à construção de conteúdos: câmara fotográfica/vídeo, scanner, computador, sistema de gravação de som - microfone, software de gravação e edição de som.

Site Histórias de Vida Oeiras:

http://historiasdevida.cm-oeiras.pt/

 

 

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