História Breve dos Relvados

Um jovem casal que esteja a construir a sua casa pode pedir ao arquiteto que projete um relvado na frente. Mas porquê um relvado? O casal poderá dizer que um relvado fica bem. Mas qual a razão para pensarem assim? Há uma história por trás disso.

Recentemente divulgámos o site europeu Historiana, que nos ajuda a olhar para o nosso próprio passado através dos olhos do “outro”.

Hoje destacamos este pequeno texto retirado do livro “Homo Deus - História Breve do Amanhã” de Yuval Noah Harari que a propósito da utilização dos relvados ao longo dos anos, acaba por nos dar uma boa razão porque devemos aprender história ao longo da vida. Não é para prever o futuro, mas para nos libertarmos do passado, sendo capaz de imaginar destinos alternativos.

Estudar a História não nos vai dizer qual a escolha certa, mas, pelo menos, dá-nos mais opções. Os movimentos que procuram mudar o mundo começam muitas vezes por reescrever a História, fazendo com que as pessoas imaginem um futuro diferente. Seja qual for o objetivo — que os trabalhadores façam greve, que as mulheres conquistem o poder sobre os seus corpos ou que as minorias oprimidas exijam direitos políticos —, o primeiro passo é reescrever a História de cada grupo. Essa nova história dirá que a situação atual não é natural nem eterna, que as coisas nem sempre foram assim, que este mundo injusto foi criado por nada mais que uma sucessão casual de acontecimentos, que se forem inteligentes é possível mudarem o mundo e criarem outro muito melhor. É por essa razão que os marxistas contam a sua própria história do capitalismo, as feministas estudam a origem das sociedades patriarcais e os afro-americanos recordam os horrores do comércio esclavagista. A sua intenção não é perpetuarem o passado, mas libertarem-se dele.

E o que é válido para as grandes revoluções sociais também vale á pequena escala da vida quotidiana. Um jovem casal que esteja a construir a sua casa pode pedir ao arquiteto que projete um relvado na frente. Mas porquê um relvado? O casal poderá dizer que um relvado fica bem. Mas qual a razão para pensarem assim? Há uma história por trás disso.

Os caçadores-recoletores não plantavam relva á entrada das suas grutas. Quem visitava a Acrópole de Atenas, o Capitólio de Roma, o Templo Judaico de Jerusalém ou a Cidade Proibida de Pequim não era recebido por um tapete verde. A ideia de ter um relvado na entrada das residências pessoais e dos edifícios públicos nasceu nos castelos da aristocracia francesa e britânica no final da Idade Média. No inicio da era Moderna, o hábito enraizou-se e tornou-se na imagem de marca da nobreza.

Os relvados bem cuidados exigiam terreno e muito trabalho, sobretudo quando ainda não havia corta-relvas e dispositivos de rega automática. Em contrapartida, não produziam qualquer valor. Nem sequer serviam de terreno para os animais porque estes iriam comer a relva e pisá-la. Os camponeses pobres não se podiam dar ao luxo de desperdiçar terras e gastar tempo com os relvados. Por essa razão, um relvado impecável à entrada do castelo era um símbolo de estatuto que não estava ao alcance de qualquer um. Era uma afirmação clara destinada a todos aqueles que por ali passavam: «Sou tão rico e poderoso, disponho de tantos hectares e de tantos criados, que até me posso dar ao luxo desta extravagância.» Quanto maior e mais bem cuidado fosse o relvado, mais poderosa era a família. Quem visitasse um duque e encontrasse um relvado em más condições, saberia que ele estava em dificuldades.

Château Chambord

Os relvados do Château Chambord no Vale do Loire. Foi construído pelo rei Francisco I de França no início do século XVI. Foi aqui que tudo começou.

O relvado impecável servia frequentemente de palco a comemorações importantes e eventos sociais, estando o seu acesso vedado nas restantes ocasiões. Até hoje, em inúmeros palácios, edifícios estatais e locais públicos encontramos os avisos para «não pisar a relva». Na universidade de Oxford, que frequentei, havia à entrada um relvado enorme e impecável, no qual só nos podíamos sentar ou passear uma vez por ano. Coitado do pobre estudante que se atrevesse a pisar a relva sagrada em qualquer outro dia.

Os palácios reais e os castelos da aristocracia transformaram o relvado num símbolo de autoridade. Quando, mais tarde, os reis foram depostos e os nobres guilhotinados, os presidentes e os primeiros-ministros não abdicaram dos relvados. Os parlamentos, os tribunais, as residências oficiais dos presidentes e outros edifícios públicos exibiam o seu poder através dos relvados. Ao mesmo tempo, estes tapetes verdes conquistaram o mundo do desporto.

Durante milhares de anos, os seres humanos jogaram em quase todo o tipo de terrenos, do gelo à areia do deserto. Contudo, nos dois últimos séculos, as competições mais importantes — sejam as de futebol ou de ténis — são disputadas na relva. Desde que, como é óbvio, haja dinheiro para isso. Nas favelas do Rio de Janeiro, os jogadores do futuro jogam com bolas improvisadas na terra batida. Mas, nos subúrbios mais prósperos, os filhos dos ricos jogam em relvados mantidos com todo o cuidado.

Dessa forma, as pessoas passaram a associar os relvados ao poder político, ao estatuto social e à prosperidade económica. Não é de estranhar que, no século XIX, a burguesia em ascensão tivesse adotado os relvados com tanto entusiasmo. De início, esse era um luxo exclusivo nas residências de banqueiros, advogados e industriais. Porém, quando a Revolução Industrial alargou a classe média e permitiu o aparecimento dos cortadores de relva e dos dispositivos de rega automática, os relvados tornaram-se, de um momento para o outro, acessíveis a milhões de famílias. Nos subúrbios americanos, o relvado deixou de ser um luxo dos ricos e tornou-se um bem essencial da classe média.

Foi nessa altura que a liturgia dos subúrbios ganhou um novo ritual. Depois da missa de domingo, muitas pessoas dedicavam-se a cortar a relva. Ao passear pelas ruas, era possível aferir da riqueza e estatuto de uma família pela dimensão e qualidade do seu relvado. O sinal mais evidente de que qualquer coisa não estava bem com uma família era se, à entrada, o relvado apresentava sinais de desleixo. A seguir ao milho e ao trigo, a relva é a semente mais plantada nos EUA e a indústria dos relvados (plantas, estrume, corta-relvas, aparelhos de rega, jardineiros) fatura anualmente muitos milhões de dólares.

A mania dos relvados não se circunscreveu à Europa e aos EUA. Mesmo as pessoas que nunca foram ao Vale do Loire, já visionaram os discursos presidenciais no relvado da Casa Branca, assistiram a importantes jogos de futebol em tapetes verdes e testemunharam as discussões entre Homer e Bart Simpson para saber quem é que vai cortar a relva. Em todo mundo, as pessoas associam os relvados ao poder, ao dinheiro e ao prestigio. Como tal, o relvado propagou--se para sítios muito distantes e ameaça conquistar até o mundo islâmico. O recente Museu de Arte Islâmica do Qatar é ladeado por relvados magníficos que lembram mais a Versalhes de Luís XIV do que a Bagdade de Harune Arraxide*. Os relvados foram projetados e construídos por uma empresa americana e a manutenção dos 100 mil metros quadrados de relva em pleno deserto da Arábia exige uma quantidade brutal de água todos os dias. Em simultâneo, as famílias da classe média que vivem nos subúrbios de Doha e do Dubai gabam--se dos seus relvados particulares. Só as túnicas brancas e os hijab negros nos dizem que estamos no Médio Oriente e não no coração da América.

Homem a cortar relva - O paraíso da pequena burguesia

Depois de ler esta história breve dos relvados, pode ser que ao planear a casa dos seus sonhos pense duas vezes antes de se decidir por um relvado à entrada. Claro que é livre de o ter, mas também se poderá libertar da carga cultural herdada dos aristocratas europeus, dos magnatas do capitalismo e dos Simpson, e construir. em vez disso, um jardim japonês ou algo completamente novo. Não há melhor razão para aprender História do que esta: não para prever o futuro, mas para se libertar do passado, sendo capaz de imaginar destinos alternativos. É óbvio que isso não corresponde a uma liberdade total — não podemos evitar a influência do passado — mas ter alguma liberdade é melhor do que não ter nenhuma.

* Harune Arraxide (Harun al-Rashid), quinto califa abássida, reinou entre 786 e 809, numa época de grande prosperidade do mundo islâmico. Durante o tempo em que governou, fez de Bagdade uma das cidades mais notáveis do mundo. [N. do T.]

Páginas 76 a 79 do livro “Homo Deus- História Breve do Amanhã"

 

Homo Deus - História Breve do Amanhã

 de Yuval Noah Harari

 ISBN: 9789898855299

 Edição ou reimpressão: 10-2017

 Editor: Elsinore

 Dimensões: 144 x 234 x 26 mm

 Encadernação: Capa mole

 Páginas: 480

 Tradução de Bruno Vieira Amaral

 

Yuval Noah Harari é historiador, investigador e professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém, considerada uma das melhores instituições de ensino em todo o   mundo.

Doutorado em História pela Universidade de Oxford, o autor tem-se dedicado a ensinar israelitas, palestinianos, judeus, cristãos, muçulmanos e ateus, encorajando-os a questionar os conhecimentos e ideias que têm por garantidos sobre a vida, o mundo e a humanidade.

Atualmente, a sua investigação incide sobre a relação entre a história e a biologia, a ética da história e a história da felicidade e do sofrimento.

Informação em: https://www.wook.pt/livro/homo-deus-historia-breve-do-amanha-yuval-noah-harari/19278254

 

Entrevista a Yuval Noah Harari

https://www.dn.pt/artes/interior/yuval-harari-nao-sabemos-o-que-ensinar-aos-jovens-pela-primeira-vez-na-historia-8486526.html

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