Educação para a Cidadania

A educação para a cidadania pode ajudar os adultos a avaliar criticamente as declarações feitas por políticos populistas, reconhecer notícias falsas (“fake news”), exercer os seus direitos democráticos e participar em processos de tomada de decisão.

Entre março e maio, a EPALE (Plataforma Eletrónica para a Educação de Adultos na Europa) irá focar-se na importância da educação para a cidadania como forma de construir uma sociedade responsável e de ensinar aos adultos como estarem mais conscientes sobre as tendências da sociedade.

Divulgamos aqui, no site da Aprender, um texto em português de Maurice De Greef, professor na Vrije Universiteit Brussel. Neste texto, que está disponível em inglês na EPALE, analisa o papel da educação de adultos para promover a cidadania ativa e apresenta uma compreensão holística das motivações da cidadania ativa que pode ser útil para os profissionais de educação de adultos continuarem a desempenhar um papel na ativação de pessoas vulneráveis.

 

Competências básicas para uma cidadania ativa

Cidadãos ativos, participação, atividades sociais! Esta visão de cidadania ativa é impossível para alguns grupos de pessoas. Pessoas vulneráveis podem não ter as competências básicas que lhes permitem participar. Para a educação de adultos ajudar a solucionar este problema, estudos recentes apontam para a necessidade de equilibrar os processos de inclusão individuais e do contexto e de equilibrar os seus aspetos emocionais e funcionais.

Maurice De Greef

Na sociedade atual parece haver uma tendência para exigir que um cidadão seja ativo e participe cada vez mais nas atividades sociais, a fim de encontrar um lugar adequado na sociedade. Vários países adotam o termo “sociedade participativa” para estimular os cidadãos a tornarem-se ativos.

Embora esta pareça ser uma perspetiva forte, a cidadania ativa parece não ser possível para todos. Devido a circunstâncias sociais, oportunidades perdidas na educação ou outras questões ambientais ou sociais, as pessoas podem tornar-se vulneráveis. Por exemplo, adultos com baixas qualificações em literacia ou competências básicas (literacia, numeracia, tecnologia) podem encontrar barreiras para se tornarem cidadãos ativos.

Isso significa que a cidadania ativa não pode ser vista apenas como a realização de novos projetos na vizinhança ou ser ativo em movimentos políticos e a apoiar outros, mas também como ser simplesmente capaz de se integrar na sociedade contemporânea.

Impacto benéfico da educação de adultos

Em nove de dez países no mundo, o conhecimento sobre o impacto da educação de adultos aumentou. Além disso, mais de metade dos países concordam com o fato de que a educação de adultos pode afetar a empregabilidade. Os adultos aprendentes parece terem um lugar melhor na sociedade depois de ingressarem em cursos de educação de adultos, tanto formais como não-formais. Por outras palavras, a educação de adultos pode ser uma alavanca para aumentar a taxa de inclusão social entre cidadãos vulneráveis. Por exemplo, aprendentes vulneráveis melhoram as suas competências linguísticas, parece mais ativos na sua vizinhança próxima, ficam menos isolados e parecem mais assertivos (De Greef et al., 2012).

Da mesma forma, os adultos aprendentes ganham mais autoconfiança, experimentam um crescimento pessoal e têm melhor interação com os outros. Como um efeito colateral para alguns deles, o seu estatuto no mercado de trabalho será melhorado após ingressar num curso de educação de adultos. Por exemplo, uns serão mais ativos na busca de um emprego, outros encontram um emprego e alguns tornam-se ativos como voluntários. Finalmente, parece que os adultos aprendentes vivenciam uma melhor saúde física e psicológica e a taxa de depressão parece diminuir.

Em suma, depois de ingressarem em cursos de educação de adultos, os adultos aprendentes tornam-se mais incluídos e ativos na sociedade. Mas o que é que isso significa para essas pessoas?

Para ajudar a entender os detalhes do processo de como a aprendizagem promove a cidadania e inclusão ativas, apresentamos uma esquema de duas perspetivas que ilustra o equilíbrio entre os processos individuais e contextuais de inclusão e o equilíbrio entre processos emocionais e funcionais de inclusão. Uma tal compreensão holística das motivações da cidadania ativa pode ser útil para os profissionais de educação de adultos continuarem a desempenhar um papel na ativação de pessoas vulneráveis.

Inclusão social como interpretação da cidadania ativa

Para descrever a inclusão social enquanto um resultado da educação, devem ser tidas em conta duas perspetivas (De Greef et al., 2012).

A primeira perspetiva ou processo de inclusão, refere-se ao equilíbrio entre a importância do individual e do contexto social (família, vizinhos, colegas, etc.) e a segunda perspetiva refere-se ao equilíbrio entre emocionalidade e funcionalidade.

Primeira perspetiva: Individual-Social

Primeiro, o nosso comportamento é determinado pela interação entre as nossas necessidades individuais e o ambiente social em mudança. Por um lado, o ambiente pode ser um fator determinante na mudança comportamental. Por outro lado, o indivíduo é capaz de fazer as suas próprias escolhas e determinar os seus próprios planos futuros.

Segunda perspetiva: Emocional-Funcional

Em segundo lugar, as pessoas vulneráveis podem participar em programas de educação de adultos motivados por diferentes fatores. Podem querer aumentar os contatos com outras pessoas para lidar com a solidão (perspetiva emocional) ou, por exemplo, alargar o seu conhecimento sobre o uso da Internet (perspetiva funcional). Nesse contexto, a inclusão social pode ser vista como indo de encontro a problemas funcionais (como ler cartas) e a problemas sociais (como entrar em contato com vizinhos) na vida cotidiana.

A Figura 1 mostra a combinação das duas perspetivas acima mencionadas sobre inclusão social. Como resultado, podem distinguir-se quatro processos de inclusão social: (a) ativação, (b) internalização (estar mais satisfeito consigo próprio e sentir-se mais seguro), (c) participação e (d) conexão.

Neste contexto, a ativação e a participação podem ser vistas como processos para aumentar o conhecimento funcional, habilidades e atitudes para encarar os problemas na vida diária. Um exemplo de ativação é organizar e ler a sua correspondência (a um nível individual) e de participação é ir ao médico (em contato com o ambiente). Por outro lado, a internalização e a conexão, são processos que descrevem o aumento de recompensas emocionais, por um lado e por exemplo, ao ser mais assertivo (a um nível individual) e, por outro lado, ganhando mais contatos pessoais (ligado com o ambiente).

Uma abordagem holística

Os decisores políticos e a sociedade, como tal, devem perceber que promover a cidadania ativa também significa promover competências básicas e inclusão social. A educação de adultos tem uma longa experiência neste campo e tem o potencial de ser uma alavanca importante para também tornar as pessoas vulneráveis em cidadãos ativos nos diferentes domínios da vida.

Para desempenhar esse papel no futuro e aumentar a cidadania ativa, a própria educação de adultos precisa incluir as duas perspetivas. Isso inclui uma compreensão do equilíbrio entre a importância do indivíduo e do ambiente e o equilíbrio entre emocionalidade e funcionalidade – e encontrar formas de implementar essa compreensão nas atividades de aprendizagem das competências básicas, com o objetivo de ampliar a inclusão social entre os adultos aprendentes.

Este texto foi primeiro publicado no ELM Magazine 

Autor: Maurice de Greef

Maurice de Greef é "Professor dos efeitos de aprendizagem em adultos pouco qualificados e iletrados" na Vrije Universiteit Brussel e realizou um doutoramento em ciências de educação com foco especial no resultado da educação de adultos em termos de inclusão social. É coordenador do projeto, investigador e formador em projetos locais, regionais e europeus em ambientes inovadores de aprendizagem, formulação de políticas estratégicas na educação de adultos e desenvolvimento de estratégias para abordar aprendentes (vulneráveis). Email: ricedegreef@gmail.com

 

Em: https://ec.europa.eu/epale/en/blog/basic-skills-active-citizenship

 

 

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Alguns artigos e recursos existentes sobre este tópico:

Podcast EPALE maio 2017: Qual o papel da educação de adultos para a cidadania ativa?

Promover a tolerância e a compreensão – o papel singular da educação de adultos

Competências básicas para cidadania ativa

Tornar-se cidadãos ativos: Como podemos tornar os nossos modelos de educação de adultos mais inclusivos?

Waste No Time (Não percas tempo) – Abordagens criativas à Cidadania Ativa

Declaração sobre a promoção da cidadania e de valores comuns de liberdade, tolerância e não discriminação, através da educação

Em: https://ec.europa.eu/epale/pt/blog/epale-focus-citizenship-education

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