Atividades com Adultos em prol da coesão e integração social

Ao contrário do que se pensa, são, ainda, muitos os adultos que demonstram graves problemas de alfabetização e iliteracia em diferentes áreas e que se encontram desempregados. Estes encontram no Ensino para Adultos, a oportunidade de melhorarem aspectos da sua condição social, sobretudo, a nível laboral, pessoal e interpessoal.

Este é o segundo texto que nos enviou Marco Andrade (da Madeira) onde relata algumas das atividades pedagógicas que desenvolveu junto de diversas comunidades adultas, em prol da coesão e integração social.

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Para além destes adultos desempregados (vida ativa), é de referir os idosos que se encontram em instituições, em especial, aqueles, cujas capacidades mentais e físicas estão funcionais e anseiam por continuar num ambiente de aprendizagem contínua, onde abordam várias áreas do saber que os faz sentir úteis e de certa forma integrados na sociedade. Ainda assim, mesmo para os que possuam demências, próprias do envelhecimento e de algumas deficiências (ligeiras), as atividades pedagógicas, num ambiente de inclusão, são uma mais-valia para todos. Tais aprendizagens, em diversas áreas, estimula-os para um melhoramento e aquisição de certas competências, não só a nível cognitivo como a nível social, possibilitando aos mesmos, maior autonomia e responsabilidade para os seus pequenos afazeres do quotidiano.

Ainda dentro da faixa dos adultos, outras comunidades raramente mencionadas, são os estrangeiros e imigrantes que residem no nosso país.

“A maioria dos países depara-se hoje com uma população escolar heterogénea do ponto de vista cultural e linguístico. Para esta situação concorrem factores como a economia globalizada, a mobilidade dos cidadãos e os fluxos migratórios.

Portugal, país tradicionalmente de emigração, tem vindo a acolher, desde os anos 90, um número crescente de novos imigrantes, mais recentemente, refugiados. Neste quadro, o fenómeno migratório assume novos contornos para a sociedade portuguesa. Por um lado, consubstancia um importante contributo face à debilidade interna da situação demográfica; por outro, é um factor positivo para o crescimento económico, para a sustentabilidade da segurança social e para o enriquecimento cultural do país.

A escola e os professores confrontam-se com a responsabilidade de acolher essa diversidade e de para ela preparar os cidadãos, reconhecendo o direito à identidade linguística e cultural.” (2008, Leiria, I. et all Orientações Programáticas de Português Língua Não Materna).

Ainda, e segundo o respectivo documento (2008), “o sistema educativo tem procurado responder às necessidades de uma comunidade escolar linguisticamente heterogénea, através da implementação de diversas medidas relativas ao ensino do Português Língua Não Materna (PLNM), tendo em conta que o desconhecimento da língua portuguesa, veículo de todos os saberes escolares, é um dos maiores obstáculos à integração destes alunos e ao acesso ao currículo”.

Se fazemos esta questão para os alunos se integrarem no currículo, qual é a que se faz para os adultos acederem ao mercado de trabalho quando os requisitos principais são o conhecimento falado e escrito da língua portuguesa e só depois, validação e reconhecimento de outras competências e conhecimentos (habilitações literárias) que adquiriram no país de origem? Será que se sentem completamente integrados?

De acordo com a experiência e contacto com estes alunos, a resposta seria NÃO porque a integração leva muito tempo, assim como a aprendizagem de um idioma completamente diferente do seu. Para além disso, para que se sintam integrados, há outros factores menos mencionados, mas fulcrais sobre como o povo e respectivo Governo do país de acolhimento lhes proporciona. A mentalidade e a ignorância dum povo, tanto do que acolhe, como o do que chega, são dois aspectos em ter consideração, justamente pelo total desconhecimento ou défice cultural, educacional e académico do mesmo, que em certos casos, poderão levar a comportamentos de estigma como o racismo e a xenofobia.

Outro factor que se fala, mas ainda não registado na Região Autónoma da Madeira, por exemplo, é a situação dos refugiados (políticos, de guerra, etc.) que precisam de aceder ao conhecimento da língua e da cultura do país de acolhimento para se integrarem. É de referir que esta integração terá de ser bem planificada e organizada, a qual deverá envolver certas áreas, (educação, serviço social, justiça e saúde) pois dar acolhimento, apenas, não é integrar e jamais o será.

Esta região, para além de turística, oferece excelentes condições para muitos estrangeiros, sobretudo, reformados e imigrantes. Tem havido uma enorme procura para a aprendizagem da língua e da cultura portuguesa para melhor se integrarem.

O que é certo e real, é o elevado número de adultos (nativos e estrangeiros) que precisam e procuram cursos e formações com o objetivo de adquirirem e melhorarem conhecimentos que convirjam para uma melhor qualidade de vida (pessoal, profissional e social).

É com base na minha experiência profissional e da minha relação com estes grupos que tento sempre procurar alternativas que vão ao encontro das suas reais necessidades, tentando implementar estratégias e métodos de inclusão e integração articuladas com o conhecimento científico e pedagógico, adequadas às especificidades e realidades de cada grupo e até de cada aluno com NE (Necessidades Especiais).

Uma das metodologias utilizadas é a de trabalhar na base de uma Comunidade de Prática (Wenger,1991) onde os sujeitos, por um interesse comum, aprendem uns com os outros, através de partilha de conhecimentos e transferência de saberes com o objetivo de construírem/aprenderem algo. A metodologia e os conteúdos programáticos dos alunos de alfabetização são diferentes da dos alunos estrangeiros, por múltiplos factores. Contudo, é possível reuni-los em diversas actividades práticas como as que poderão visualizar em anexo.

Tem sido uma experiência interessante e profícua a nível pessoal e profissional que me tem enriquecido e valorizado pelos resultados e, sobretudo, pela divulgação da nossa língua e cultura além-fronteiras. Outra das razões que me satisfaz, é o reconhecimento feito pelos alunos e pela instituição onde tenho trabalhado. É muito gratificante vê-los mais integrados e incluídos na nossa sociedade e aplicarem na prática o que foi, muitas vezes, sugerido e abordado nas aulas.

Apesar de estar desempregado, sinto-me feliz por trabalhar com pessoas interessadas e que respeitam o papel do professor e da Educação.

 

Nota: Pode aceder a mais informação sobre estas atividades aqui: Facebook INCLUSIVA - Comunidade Pedagógica, Cultural & Linguística

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